POR Douglas Monaco 03/01/2017 - 09h46

Em defesa da gestão de conhecimento no Palmeiras

“O conhecimento é a única fonte real de vantagem competitiva sustentável”.
Peter Drucker – pensador da administração de empresas

As complexidades de se dirigir um empreendimento futebolístico – seja um clube ou uma empresa listada no mercado acionário – são severas e requerem atenção permanente a inovações. Outro importante fundamento é a preservação da base de conhecimento sobre a qual a entidade alcança seus sucessos.

Este artigo apoia-se em lições dos anos 1992 a 1999 – conhecidos nos meios futebolísticos brasileiros como “Era Parmalat” – para advogar a implantação de um sistema de gestão de conhecimento – GC – na Sociedade Esportiva Palmeiras, clube brasileiro que, desde sua fundação em 1914, é sediado na cidade de São Paulo.

Neste artigo, define-se GC como o conjunto de processos que inclui a geração, armazenamento, transferência e uso de conhecimento; e cujo objetivo é agregar valor para a organização e seus stakeholders. Em essência, pode-se dizer que a GC é um processo que faz o conhecimento adequado estar disponível às pessoas corretas na hora certa [1].

Importante: a proposta feita neste artigo não assume que não exista – ou não esteja em formação – algum sistema de GC no clube, já que o autor não tem acesso a informações internas do clube. O artigo simplesmente visa enfatizar a importância da GC e a oportunidade que o momento atual representa. Caso algum sistema de GC já esteja “no forno”, tanto melhor!

O Palmeiras está se reposicionando para lidar com as complexidades do futebol

As complexidades do futebol sempre foram presentes. Apesar de, no começo, as mesmas serem menos notórias, sabe-se hoje que os clubes/empresas que demoram em perceber tendências ficam para trás e, quanto maior o atraso, maior o custo de “tirar o atraso”.

Até há pouco, nosso Palmeiras enquadrava-se na descrição, algo sabido por nós seus torcedores como bem atestaram os anos 2000 a 2014. Nosso ex-presidente Paulo Nobre disse várias vezes durante seus dois mandatos recém encerrados: “o campeão do século XX ainda não entrou no século XXI”.

O estado atual do clube, entretanto, é de franco desenvolvimento e sugere um futuro promissor. Eis alguns indicadores atuais:

1. A posição financeira é relativamente forte e a previsão de saídas de caixa mostra um equilíbrio salutar entre quitação de dívidas e execução de gastos correntes.

2. As fontes de financiamento são variadas e crescentes para os anos futuros: ingressos no estádio constantemente esgotados, sócio torcedor Avanti, patrocínio da camisa, cotas de TV, produtos licenciados etc.

3. O time venceu duas competições nacionais recentes – CdBR2015 e Brasileirão2016.

4. O time atual é forte e o clube tem capacidade de contratar/repor jogadores de qualidade.

5. Processos internos têm adotado o “estado da arte” em áreas como fisiologia, nutrição, ortopedia, gestão de desempenho, gestão de pessoas, recrutamento de jogadores, controles administrativos etc.

6. O valor da marca, provavelmente, esteja num momento de pico, historicamente falando. O entusiasmo e a adesão da torcida só fazem crescer e se fortalecer.

Assim, dado esse cenário interno, pode-se garantir que o clube terá permanente sucesso em tudo que fizer para sempre, certo? Certamente, não. Não se pode garantir, em primeiro lugar, porque risco é inerente a qualquer atividade humana. Além dessa condição básica, importantes medidas teriam de ser tomadas para tal previsão se tornar realidade.

Reconhecimento de ameaças e comparação com a era Parmalat

O que se pode dizer é que a situação atual se assemelha à de uma boa semente que, plantada em 2013, começou a germinar. Quase morreu em 2014, retomou o crescimento, gerou alguns frutos em 2015 e mais ainda em 2016.

Agora, se a atual transformação do Palmeiras for mesmo “uma planta boa”, ela deve ser protegida contra ervas daninhas e predadores que possam sufocar lhe o desenvolvimento. Sim, é certo que há muitos problemas potenciais – com destaque para a política do clube e a bem conhecida ameaça batráquia que assombra os jardins do Palmeiras desde o fim dos anos 70.

Mas, além da politicagem e as metáforas zoo-agro, as maiores ameaças são riscos de escassez de caixa e de recursos, i.e. caso fontes de financiamento comecem a secar, tem-se o risco de deterioração da infraestrutura e da capacidade de contratar jogadores de alto nível.

Assim, um esforço massivo e maciço deve ser feito visando garantir o poder aquisitivo do clube, tanto mantendo-se quanto ampliando-se as atuais fontes financeiras. Confio que muitos dentro do clube estejam empenhados em fazer isso.

Mas, há um passo que parece ainda não ter sido tomado e representaria um grande avanço na salvaguarda dos presentes desenvolvimentos do clube. É algo que não precisa de grandes investimentos, cujo lançamento pode ser feito com agilidade e cuja existência representaria uma defesa permanente contra eventuais escassezes.

Mas, antes de aprofundar-se na questão, é útil relembrar-se de outra “primavera palmeirense”, que aparentava cultivar um novo tempo no clube, mas que não sobreviveu ao fim da parceria que deu nome ao período, “a era Parmalat”.

Então como agora, havia forte fluxo de entrada financeira, tínhamos um time de estrelas – a cada ano, o pacote de contratações era uma data aguardada no calendário dos torcedores – o time venceu inúmeros torneios, a exposição e a valorização da marca eram fortes.

Então como agora, havia muita esperança que o Palmeiras nunca mais ficaria “na fila” por títulos. Bem, a era acabou, basicamente, em 1999 logo antes da seca de títulos mencionada alguns parágrafos acima – 2000 a 2014; e foi seguida por dois rebaixamentos nos campeonatos brasileiros de 2002 e 2012.

O sistema de gestão de conhecimento

A lacuna então e que nós – cruzando os dedos – esperamos não se repita agora era a habilidade de absorver as competências então agregadas pela Parmalat.

Gestão da produção, recrutamento de jogadores, gestão de grupo, exposição da marca, gestão do orçamento etc. eram todos processos nos quais o Palmeiras estava atrasado havia muitos anos e em que a Parmalat detinha excelência.

Nós sabíamos então que, em algum momento, a parceria acabaria e o dinheiro que ela trazia secaria. Assim, tínhamos de ter usado aquela experiência para APRENDER com eles e, acima de ocasionais superávits financeiros que o período deixasse no seu rastro, o legado mais importante teria de ser o know-how absorvido pelo clube e que lhe permitiria replicar métodos e não se ver enterrado em fracassos nos 15 anos seguintes.

Okay, é claro que, agora, o Palmeiras está investindo em infraestrutura e há previsão de volumosas entradas de caixa nos próximos 8 anos – da Globo e da Esporte Interativo.

Mas, a pergunta-chave é: será que todas as novas práticas estão sendo devidamente assimiladas e documentadas? Temos certeza de que as respectivas competências estão sendo absorvidas? Apenas como exemplo, sabe-se que um dos determinantes das conquistas de 2015 e 2016 foi a expertise de Alexandre Mattos – diretor de futebol – na prospecção de talentos e nas negociações de aquisições e contratos; outro determinante foi a habilidade de Cícero Souza no que se convencionou chamar de “gestão do vestiário”, i.e. as técnicas de gestão de pessoas que visam manter os jogadores protegidos de problemas que possam distraí-los e ou desuni-los.

Assim, dada a importância desses dois, será que o Palmeiras está pronto para vê-los serem “levados” por algum outro clube? Por comentários de internet, tem-se notícia que ambos já receberam propostas para trocar de emprego e preferiram manter-se no Palmeiras. Quantas outras propostas serão necessárias para que ambos mudem de ideia? O mesmo valendo para todos os grandes profissionais atualmente empregados pelo Palmeiras.

A proposta aqui é que se construa um sólido sistema de gestão de conhecimentos no Palmeiras, que documente toda essa expertise e a faça disponível a qualquer funcionário que venha a atuar pelo clube.

Evidentemente, há traços de personalidade que jamais serão transferíveis – marcadamente as habilidades dos jogadores e a capacidade tática dos treinadores. Mas, seguramente, há meios de se fazer apreensível e replicável muito – ou a maior parte – do conhecimento atualmente sendo aplicado pelo clube.

Fazer isso ampliará muito a capacidade do Palmeiras tornar a situação atual permanente e satisfazer a gigante legião de torcedores do Palmeiras, evitando que os atuais “ventos favoráveis” não se tornem um novo “voo da galinha”.

Os benefícios de implementar-se um sistema assim são abundantemente documentados[2] na literatura de GC. Tudo que o Palmeiras tem de fazer é se mover e adotar mais essa inovação, algo que vai aumentar muito sua capacidade de perenizar o atual bom momento.

Que o novo presidente preste atenção à oportunidade que se lhe apresenta e lance esse fundamento que fará diferença pelas próximas gerações do clube.

Esse é meu “desejo secreto” para o ano novo.

#ForzaPresidente

#VamosPalmeiras


[1] Knowledge Management Audit in a Higher Educational Institution: A Case Study”. By Robert Biloslavo and Anita Trnavcevic, published in Knowledge and Process Management Vol 14 issue 4, year 2007.

[2] Dois exemplos recentes: “The knowledge manager’s handbook: a step by step guide to embed effective knowledge management in your organization” de 2016 editora Kogan Page; e “Designing a successful KM strategy: a guide for the KM professional” de 2014, editora Information Today.

* Douglas Monaco é leitor e padrinho do Verdazzo. Este artigo foi publicado ontem em inglês no Anything Palmeiras



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